Projeto de IA aprovado em edital cultural abre alerta para desvalorização de profissionais do audiovisual

Aprovação de produção com Inteligência Artificial em edital público gera reação de profissionais e levanta debate sobre substituição do trabalho humano

O resultado preliminar do Edital 60.008/2025 Fomento a Projetos Culturais PNAB Ciclo 2 2025/2026, vinculado à Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope), abriu debate em torno de um dos projetos aprovados na área do audiovisual. O edital tem como objetivo selecionar 60 projetos culturais para receber apoio financeiro, conforme categorias descritas no Anexo I, visando incentivar diversas manifestações culturais no município de João Pessoa.

A discussão surgiu após a identificação de um projeto aprovado que prevê a realização de sua produção cinematográfica com uso de Inteligência Artificial, conforme consta no resultado preliminar divulgado.

Print feito do resultado divulgado, preservando a identidade do contemplado

O portal No Combate recebeu diversas mensagens de concorrentes, que optaram por não ter seus nomes divulgados para preservar suas identidades, relatando insatisfação com o resultado. Entre os relatos, há participantes que inscreveram projetos audiovisuais desenvolvidos com equipes humanas, incluindo propostas vinculadas a cotas para pessoas negras e produções documentais voltadas à valorização de legados históricos e culturais da cidade. Esses projetos envolveram pesquisa, entrevistas com professores de História e construção narrativa baseada em fontes humanas, mas ficaram na condição de suplência.

Um dos pontos levantados não é apenas a não aprovação desses projetos, mas o fato de terem sido superados por uma proposta cuja execução será baseada em Inteligência Artificial. Segundo os relatos, esse tipo de produção pode demandar contratação de ferramentas especializadas, geralmente cobradas em moeda estrangeira, com custos elevados para acesso a recursos avançados de grandes empresas de tecnologia.

Para os profissionais, isso levanta questionamentos sobre a substituição do trabalho humano em produções que, segundo eles, exigem sensibilidade, pesquisa e interação direta com pessoas e histórias locais, especialmente quando se trata de conteúdos voltados à memória e à identidade cultural.

De acordo com informações recebidas, profissionais da área manifestaram indignação com a aprovação de projetos dessa natureza. “Enquanto a IA não tem contas para pagar, nem família para sustentar, nós, que trabalhamos com audiovisual, vamos perdendo espaço e renda para produções automatizadas”, relatou um dos participantes.

O uso de Inteligência Artificial no audiovisual tem sido tema de debate em diversas partes do mundo. Entre 2023 e 2026, protestos e mobilizações ganharam força em cidades como Los Angeles, Nova York, Londres, Annecy, Sydney, Melbourne, São Paulo e Salvador. As manifestações defendem a regulamentação do uso da tecnologia, a proteção de direitos autorais e a preservação de empregos no setor.

O caso em João Pessoa reforça a necessidade de ampliar o debate sobre os critérios de seleção em editais públicos e os impactos do uso da Inteligência Artificial no campo cultural, especialmente no audiovisual.

Até o momento, as partes citadas não se manifestaram sobre o caso. O No Combate permanece à disposição para quaisquer esclarecimentos ou divulgação de nota.

Agama Ferraz / No Combate

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